Para onde foram os décimos da Sapucaí
Vinte carnavais de cadernos de notas do Grupo Especial carioca mostram uma compressão mais lenta que a paulista — e um julgamento que, ao contrário do de São Paulo, ainda espalha a perda pela cédula inteira.
O quesito mais severo da história recente da Sapucaí não existe mais. Entre 2006 e 2014, o Conjunto — aquele que pedia ao jurado a impressão do todo do desfile — tirou 1,60 décimo por cédula, empatado com a Alegoria no topo do ranking dos descontos. Em 2015, como contamos em “Quando o Rio começou a desconfiar do jurado”, ele sumiu da cédula. O que os números fazem com essa história é o assunto deste artigo: depois de mapear para onde foram os décimos de São Paulo, aplicamos a mesma lupa aos 9.617 registros de nota dos cadernos da LIESA guardados no acervo — Grupo Especial, 2006 a 2026.
A resposta carioca tem o mesmo enredo geral — as notas sobem, o desconto míngua, o dez vira padrão — mas com dois desvios que mudam tudo: a compressão do Rio veio uma década atrasada em relação à paulista, e a perda que sobrou não se concentrou. Em São Paulo, dois quesitos de barracão respondem por quase metade dos décimos em disputa; na Sapucaí, nenhum quesito passa de 15% — a cédula inteira segue viva, ainda que murchando em conjunto.
A queda em degraus
O Rio resistiu no planalto até 2014 — e desabou quando SP já tinha chegado ao chão
Somando a perda média dos nove quesitos atuais, uma escola carioca de 2006 deixava na pista cerca de 18 décimos por cédula. A queda, porém, não foi contínua: o Rio passou 2007–2014 num planalto de 11 a 14 décimos — enquanto São Paulo despencava em 2012 —, e só desabou em 2015, o ano em que a cédula perde o Conjunto e a faixa de notas se consolida em 9–10. Dali em diante, o desconto se acomoda em torno de 7, com o piso histórico de 5 décimos em 2025.
O degrau tem contexto documental: a menor nota lançada no grupo sobe de 8,0 (2006) para 9,0 (2010) e 9,2 (2012), mas o jurado seguiu usando a faixa que tinha. A partir de 2014–2015, o piso observado gruda em 9,5–9,6 — e é aí que a perda desaba. A régua apertou primeiro; o comportamento só rendeu depois.
Um reinado sem folga
Alegoria lidera — mas o Rio não tem dupla dominante
No ranking do período completo, a Alegoria repete a liderança paulista (1,60 décimo por cédula). O resto do pódio, porém, é irreconhecível para quem vem de São Paulo: Enredo, Fantasia, Harmonia e Comissão de Frente vêm colados, todos entre 1,10 e 1,24 — e o Conjunto, extinto, divide o topo com a Alegoria. A hierarquia carioca é um pelotão, não um pódio.
- Alegoria
- Fantasia
- Enredo
- Evolução
- Harmonia
- Comissão de Frente
- Mestre-sala e P.-bandeira
- Bateria
- Samba-enredo
- Conjunto
A Bateria fecha a lista aqui como lá — 0,70 na média histórica e apenas 0,34 na era atual. É o único quesito que o Rio de fato aposentou do desconto: 4,9% da perda atual, o único abaixo de 8%.
A perda que não se concentra
A fatia cinza some em 2015 — e as outras nove seguem do mesmo tamanho
É na composição da perda que Rio e São Paulo mais se afastam. Ano a ano, as fatias cariocas são de uma regularidade quase monótona: nada domina, nada morre. A fatia cinza do Conjunto desaparece do gráfico em 2015 — e seus décimos não migraram para um quesito-rei; diluíram-se no pelotão.
- Alegoria
- Fantasia
- Enredo
- Evolução
- Harmonia
- Comissão de Frente
- Mestre-sala e P.-bandeira
- Bateria
- Samba-enredo
- Conjunto
O mapa de calor carioca não tem as linhas apagadas do mapa paulista. Na era atual, oito dos nove quesitos descontam entre 0,58 e 1,01 décimo por cédula — a Harmonia, que em São Paulo caiu a 0,16 e virou pró-forma, no Rio segue tirando 0,84, quase o mesmo que a Alegoria. O quesito que canta ainda desconta na avenida onde o samba corre mais risco.
O que ainda separa as escolas
Tudo caiu — e tudo ainda decide um pouco
A dispersão entre as escolas conta a mesma história por outro ângulo. Na era 2006–2011, a Alegoria espalhava as escolas com um desvio de quase 8 décimos; hoje, nenhum quesito passa de 3,6. Mas repare no piso: com exceção da Bateria (1,6), todos os quesitos seguem com desvio entre 2,4 e 3,6 — em São Paulo, quatro quesitos já rodam em torno de 1. No Rio, a apuração ainda é uma disputa de nove frentes.
Três eras em uma tabela
2006–2011, 2012–2016, 2017–2026: o desconto por cédula e a fatia de cada quesito
| Quesito | 2006–2011 | 2012–2016 | 2017–2026 |
|---|---|---|---|
| Alegoria | 2,52 (20%) | 1,59 (14%) | 1,01 (15%) |
| Enredo | 1,78 (14%) | 1,18 (11%) | 0,89 (13%) |
| Fantasia | 1,42 (11%) | 1,38 (12%) | 0,88 (13%) |
| Comissão de Frente | 1,20 (9%) | 1,49 (13%) | 0,84 (12%) |
| Harmonia | 1,61 (13%) | 1,18 (11%) | 0,84 (12%) |
| Evolução | 1,42 (11%) | 1,15 (10%) | 0,82 (12%) |
| Samba-enredo | 1,00 (8%) | 1,31 (12%) | 0,75 (11%) |
| Mestre-sala e P.-bandeira | 0,94 (7%) | 0,93 (8%) | 0,58 (8%) |
| Bateria | 0,98 (8%) | 1,03 (9%) | 0,34 (5%) |
| Total (déc./cédula) | 12,9 | 11,2 | 6,9 |
Duas curiosidades por era. Na primeira, a Harmonia era o terceiro quesito mais severo do Rio (1,61 por cédula) — o oposto simétrico de São Paulo, onde ela nunca liderou nada. Na segunda, a Comissão de Frente vive seu auge (1,49, segundo lugar): são os anos em que o quesito virou corrida armamentista de efeitos e truques, e o jurado acompanhou com a caneta. Na era atual, a tabela é de uma planície só — sete quesitos entre 0,75 e 1,01.
Rio × São Paulo, era atual
A mesma década, as mesmas nove cédulas — dois julgamentos
| Quesito | Rio (2017–2026) | São Paulo (2017–2026) |
|---|---|---|
| Alegoria | 1,01 | 1,34 |
| Enredo | 0,89 | 0,38 |
| Fantasia | 0,88 | 1,32 |
| Comissão de Frente | 0,84 | 0,56 |
| Harmonia | 0,84 | 0,16 |
| Evolução | 0,82 | 0,82 |
| Samba-enredo | 0,75 | 0,35 |
| Mestre-sala e P.-bandeira | 0,58 | 0,31 |
| Bateria | 0,34 | 0,26 |
| Total (déc./cédula) | 6,9 | 5,5 |
A tabela lado a lado resume as duas filosofias que a série de artigos vem descrevendo. O Rio, que moldurou o jurado mas não tabelou a falha, ainda desconta 7,0 décimos por cédula-quesito — 25% a mais que os 5,5 de São Paulo — e distribui a perda por toda a cédula. São Paulo, que amarrou cada décimo a uma infração catalogada, desconta menos no total e concentra o que restou nos dois quesitos que a tabela não alcança por inteiro: Alegoria e Fantasia. No Rio, Harmonia desconta cinco vezes o que desconta em SP; Samba-enredo, o dobro; Enredo, mais que o dobro. Só na Bateria as duas cidades se encontram: ali, o dez virou consenso nacional.
Os cadernos da LIESA mostram uma Sapucaí a meio caminho do destino paulista — e andando na mesma direção. A perda total já caiu de 18 para 5–7 décimos; o dez cravado já é 61% das cédulas; a Bateria já foi aposentada do desconto. O que o Rio ainda não fez foi eleger seus quesitos-reis: enquanto a nota for uma faixa e não uma tabela de infrações, cada jurado guarda um resto de régua própria, e cada quesito, um resto de poder. É essa sobra — 1 décimo aqui, 0,8 ali, espalhados pela cédula — que hoje separa campeã de vice na apuração mais apertada do país.
O paradoxo que fecha a série é o mesmo das outras pontas: quanto mais o julgamento se aproxima da perfeição, menos ele julga. O Rio extinguiu o seu quesito mais severo, apertou a faixa e viu o desconto minguar — mas, por ora, ainda é o carnaval onde perder décimo é possível em qualquer quesito. A julgar pela curva, é uma questão de tempo.
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