Para onde foram os décimos
Dezoito carnavais de cédulas do Grupo Especial de São Paulo mostram um julgamento que hoje desconta um quinto do que descontava — e que concentra quase metade da disputa em dois quesitos de barracão.
No carnaval de 2025, os jurados de Bateria do Grupo Especial de São Paulo preencheram 56 cédulas — quatro julgadores, catorze escolas — e não tiraram um único décimo de ninguém. Nota dez, 56 vezes. Não foi acidente nem generosidade de um ano: foi o ponto de chegada de uma trajetória que este site consegue medir cédula a cédula. Em “Quando o samba virou planilha” contamos como São Paulo tabelou a falha e proibiu o gosto; aqui perguntamos aos números o que sobrou depois disso. Onde, afinal, o carnaval paulista ainda perde décimos?
A matéria-prima são as 9.022 cédulas do Grupo Especial guardadas no acervo — jurado por jurado, quesito por quesito, de 2008 a 2026. A unidade de medida é o décimo perdido: a distância entre a nota lançada e o dez. Somados e comparados, esses décimos contam duas histórias ao mesmo tempo: a de uma régua que encolheu para todos, e a de um peso que migrou de quesito para quesito até se concentrar onde está hoje.
A régua que encolheu
De 19 décimos por cédula para 4 — o desconto virou exceção
A primeira história é a da compressão. Somando a perda média dos nove quesitos, uma escola de 2008 deixava na avenida cerca de 19 décimos por cédula; a de 2025, menos de 4. O tombo tem endereço: em 2012, a menor nota lançada no grupo salta de 8,0 para 8,9 — é o ano em que a faixa efetiva de julgamento fecha —, e a partir de 2017, com a tabela de infrações, o desconto sem causa catalogada simplesmente desaparece. O gráfico abaixo mostra a queda; o degrau de 2012 e o piso da era atual são visíveis a olho nu.
Vale a ressalva de sempre: 2010 cobre apenas 7 dos 14 desfiles no acervo, e 2021 não teve carnaval. Nada disso muda a direção da curva — muda, no máximo, a altura de um degrau.
Quem ainda tira décimo
Três quesitos descontam o dobro de qualquer outro
A segunda história é a da hierarquia. Nem todos os quesitos encolheram por igual — e o ranking do período inteiro é eloquente. Alegoria, Evolução e Fantasia descontam, por cédula, o dobro ou mais de qualquer um dos outros seis quesitos. São eles que fazem a régua do campeonato.
- Alegoria
- Fantasia
- Enredo
- Evolução
- Harmonia
- Comissão de Frente
- Mestre-sala e P.-bandeira
- Bateria
- Samba-enredo
Na outra ponta, Samba-enredo — o quesito mais celebrado da liturgia do carnaval — é o que menos tira décimo: 0,45 por cédula na média histórica, e bem menos que isso hoje. Harmonia, Bateria e o casal de Mestre-sala e Porta-bandeira completam o pelotão dos quesitos onde o dez virou o resultado esperado.
O peso que migrou
Do carnaval de pista ao carnaval de barracão
Mais revelador que o tamanho da perda é a sua composição — a fatia que cada quesito ocupa no total de décimos perdidos do ano. É essa fatia que mede o peso real do quesito na definição das campeãs e das rebaixadas. E ela se moveu.
- Alegoria
- Fantasia
- Enredo
- Evolução
- Harmonia
- Comissão de Frente
- Mestre-sala e P.-bandeira
- Bateria
- Samba-enredo
No começo da série, a perda se espalhava: Harmonia levava 9,5% do desconto total, Bateria 7,9%, e o trio de cima dividia o resto com folga. Na década atual, Alegoria (24,4%) e Fantasia (24,0%) respondem juntas por quase metade de todos os décimos em disputa — enquanto Harmonia despencou para 3% do total e, em valor absoluto, desconta hoje um décimo do que descontava (0,16 contra 1,63 décimos por cédula). O carnaval que se julga na pista foi cedendo lugar, décimo a décimo, ao carnaval que se julga no barracão: costura, acabamento, escultura, o que se vê e se fotografa.
O mapa de calor resume a era: as quatro linhas de baixo praticamente apagam a partir de 2017. Nos quesitos de som e de pista, o jurado de hoje quase não encontra — ou quase não pode registrar — motivo catalogado para descontar.
O que ainda separa as escolas
Dispersão é poder de decisão — e ela mora no visual
Há uma objeção possível: se todo mundo perde pouco, talvez os décimos perdidos digam pouco. A resposta está na dispersão entre as escolas — o desvio-padrão dos décimos dentro de cada quesito, a medida de quanto ele de fato separa uma escola da outra. Quesito em que todas tiram dez não decide nada; quesito que espalha as notas é quesito que escolhe campeã.
A compressão derrubou a dispersão de todos os quesitos — mas não mudou quem manda. Alegoria e Fantasia seguem espalhando as escolas duas, três vezes mais que os quesitos de pista; a Evolução vem atrás, ainda relevante. No extremo oposto, Bateria e Harmonia hoje separam quase nada: na média da era atual, seu desvio fica em torno de um décimo — o mesmo décimo que, como vimos na série, decidiu os últimos campeonatos.
Três eras em uma tabela
2008–2011, 2012–2016, 2017–2026: o desconto por cédula e a fatia de cada quesito
| Quesito | 2008–2011 | 2012–2016 | 2017–2026 |
|---|---|---|---|
| Alegoria | 3,54 (21%) | 0,80 (10%) | 1,34 (24%) |
| Fantasia | 2,14 (12%) | 1,45 (19%) | 1,32 (24%) |
| Evolução | 2,94 (17%) | 1,90 (25%) | 0,82 (15%) |
| Comissão de Frente | 1,28 (7%) | 0,58 (8%) | 0,56 (10%) |
| Enredo | 2,26 (13%) | 0,58 (8%) | 0,38 (7%) |
| Samba-enredo | 0,94 (5%) | 0,26 (3%) | 0,35 (6%) |
| Mestre-sala e P.-bandeira | 1,12 (7%) | 0,58 (8%) | 0,31 (6%) |
| Bateria | 1,36 (8%) | 0,92 (12%) | 0,26 (5%) |
| Harmonia | 1,63 (9%) | 0,63 (8%) | 0,16 (3%) |
| Total (déc./cédula) | 17,2 | 7,7 | 5,5 |
A tabela guarda uma curiosidade por era. Em 2008–2011, o Enredo era o terceiro quesito que mais descontava — reflexo de um tempo em que o jurado ainda julgava a ideia com severidade. Em 2012–2016, a Evolução assume a ponta com um quarto de toda a perda: era o quesito das “falhas contáveis” — buracos, correria, ala fora de lugar — antes de as grades de medida domarem também esse desconto. Na era atual, a ordem se assenta de vez: Alegoria e Fantasia empatadas na ponta, separadas por décimos de ponto percentual, e tudo o mais reduzido a coadjuvante.
Juntos, os cinco gráficos respondem à pergunta do título com uma precisão desconfortável. Os décimos não sumiram por acaso: foram sendo lacrados quesito a quesito, na exata medida em que cada um ganhou critérios contáveis — BPM na Bateria, grades na Evolução, tempo de canto na Harmonia. O que não se conseguiu tabelar por completo — o acabamento de uma escultura, a costura de três mil fantasias — é o que ainda desconta, e por isso é o que ainda decide. O campeonato do carnaval mais objetivo do país se resolve, ano após ano, no quesito em que a objetividade menos alcança.
Para o torcedor, a tradução é direta: a escola que quer ser campeã em São Paulo precisa, antes de tudo, não errar no barracão. O samba pode ser antológico, a bateria pode ser impecável — dez de todo mundo, como em 2025. É na fibra de vidro e na máquina de costura que o título escapa.
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