Jurado · Rio · Samba Enredo
Igor Fagundes
2025–2025 · Carnaval do Rio (LIESA)
Cédulas
12
notas atribuídas
Média de décimos descontados
0,07
por cédula
Severidade
+0,03
Na média
Perfil de severidade
Quanto a nota média deste jurado se afasta da média geral do seu quesito.
Na médiaEm média desconta 0,03 a menos que os colegas de Samba Enredo.
›Severidade compara médias históricas; não indica erro de julgamento, e sim estilo relativo ao painel.
Notas mais fora da curva
12 cédulas · ordenadas pelo maior desvio em relação à média do painel
| Ano | Escola | Quesito | Nota | Média do painel | Desvio |
|---|---|---|---|---|---|
| 2025 | Paraíso do Tuiuti | Samba Enredo | 9,8 | 9,9 | -0,13 |
| 2025 | Unidos do Viradouro | Samba Enredo | 9,9 | 10,0 | -0,08 |
| 2025 | Estação Primeira de Mangueira | Samba Enredo | 10,0 | 9,9 | +0,08 |
| 2025 | Unidos de Padre Miguel | Samba Enredo | 9,9 | 9,9 | +0,05 |
| 2025 | Imperatriz Leopoldinense | Samba Enredo | 10,0 | 10,0 | +0,05 |
| 2025 | Unidos da Tijuca | Samba Enredo | 10,0 | 10,0 | +0,05 |
| 2025 | Mocidade Independente de Padre Miguel | Samba Enredo | 9,9 | 10,0 | -0,05 |
| 2025 | Acadêmicos do Salgueiro | Samba Enredo | 9,9 | 9,9 | -0,03 |
| 2025 | Beija-Flor de Nilópolis | Samba Enredo | 10,0 | 10,0 | 0,00 |
| 2025 | Unidos de Vila Isabel | Samba Enredo | 9,8 | 9,8 | 0,00 |
| 2025 | Acadêmicos do Grande Rio | Samba Enredo | 10,0 | 10,0 | 0,00 |
| 2025 | Portela | Samba Enredo | 10,0 | 10,0 | 0,00 |
Justificativas transcritas
6 apontamentos com perda de nota
| Ano | Escola | Quesito | Conf. | Justificativa (transcrição) |
|---|---|---|---|---|
| 2025 | Acadêmicos do Salgueiro | Samba Enredo | alta | LETRA: (-0,1) Por inadequação de letra ao enredo em "Quem tem medo de Quiumba não nasceu pra demandar". A palavra "Quiumba" se sugere no lugar de outra por falsa assimilação de sentido e, enfim, problemática no contexto. Explicação: O enredo se refere a ritos de fechamento de corpo, de proteção contra o MAL, por forças do BEM. Apesar das associações resultantes do racismo religioso na sociedade, a chamada linha de esquerda — os exus e pombagiras — são quimbandeiros não porque quimbas. "Quiumbas" são forças do MAL, o que resulta não em "quimbanda" como derivada de "quiumbanda", na qual forças da esquerda nos livram justamente de "quiumbas", de "demandas", no contexto específico de "demandar" como rogar negatividade, maldade. Logo, que faz demanda não deve ter medo de "Quiumba", mas, sim, do Salgueiro, que está de corpo fechado pelo bem, uma vez "batizado no congá", como "terreiro" que é "casa da mandinga". A lógica do refrão é a de que aquele que demanda deve ter "medo" do Salgueiro ("Quem se mete com Salgueiro acerta as contas na corimba"), em vez de "medo de Quiumba", a menos que tal palavra esteja equivocadamente associada aos espíritos quimbandeiros protetores, representantes do bem. Do contrário, quem "nasceu ou não pra demandar" o fará temendo ou não o mal. O resultado é um verso que, se não gera desvio de sentido, figura apenas para volumizar a estrofe e produzir rima entre "congá" e "demandar". Acrescente-se, ainda, que tal refrão principal incorre em pobreza poética, seja porque 1) trabalha esquema rímico igual ao do refrão do meio, repetindo "Salgueiro" e as rimas em "eiro"/"eira" nas duas estrofes principais quanto ao canto; 2) apela a soluções de letra fáceis e previsíveis na medida em que já muito trabalhadas em sambas anteriores da escola, escamoteando uma zona de conforto (falta de criatividade) por meio do questionável argumento de "estilo" da escola. |
| 2025 | Mocidade Independente de Padre Miguel | Samba Enredo | alta | LETRA: (-0,1) Considerando a desejável riqueza poética dos versos, há recorrência de rimas soantes pobres (mesma classe gramatical) entre substantivos e, especialmente, entre verbos. No caso destas, o comprometimento da beleza se agrava pelas rimas sucessivas por meio da primeira pessoa do singular do pretérito perfeito ("Naveguei", "Me emocionei", "Atravessei"...) e por meio do infinitivo no refrão principal ("clarear", "desfilar") e no do meio ("sonhar", "viver", "voltar", "ver", "renascer"), ou seja, cantados com BIS. Ainda que se note com "esa" uma rima toante (ainda pobre, por tratar-se de verbo) com "Deixa", tal palavra se sugere solta (com pouca conexão ou mesmo justificativa suficiente/consistente para que exista), comparecendo muito mais para preencher o fim do verso mediante sua expectativa de duração. Soma-se a tais índices de pouca criatividade, o uso desnecessário da palavra "luz" duas vezes na letra, bem como da palavra "mão/mãos", também por duas vezes. Por isso, o decréscimo de (-0,1) um décimo de ponto pelos recursos de facilitação (clichês) na construção dos trechos citados. |
| 2025 | Paraíso do Tuiuti | Samba Enredo | alta | LETRA: (-0,1) No que diz respeito a adequação da letra ao enredo, há um investimento na relação entre o passado (o recorte de época) e o presente (o recorte contemporâneo), ou seja, entre o tempo de Xica e o tempo de todas as travestis e população LGBTQIAP+ que gera, no caso específico, do refrão principal, certo anacronismo na comunicação da linguagem trans "PAJUBÁ". Uma vez que, mesmo falando junto a todas as trans de todos os tempos, o enredo sobre Xica Manicongo traz um refrão que dá a entender (ou a gerar dúvida) que tal linguagem ("aquendar", "xexar") data da época da personagem, quando é muito mais recente e, por isso, também datada. Na conexão sonora entre as palavras "Pajubá" e "Mojubá", ganha-se a feliz sugestão de como o campo do gênero e da sexualidade cruza o campo étnico-racial e religioso, incorporando-o por ressignificação. Porém, insurge a não desejada sugestão de que as palavras "aquendar" e "xexar" também derivam de iorubá. Além disso, ressoa vaga a evocação a Exu ("para Exu") para a comunicação plena de como o culto de matriz africana ("põe marafo, fubá e dendê") está em interseção com a experiência trans, sobretudo porque a aquenda é cantada após o gesto de esconder a genitália masculina ("aquendar"). Afinal, a evocação da energia feminina por meio do chamado às "pererecas" no sentido a "pombagirar" o corpo está em trecho distante e desconectado de tal refrão que tenta uma irreverência em contraste com a reverência ao orixá Exu e o tom solene das estrofes à parte do refrão. Por esse motivo, justifica-se o decréscimo de um décimo de ponto. MELODIA: (-0,1) Em um enredo (e também letra) que se quer provocador, transgressor, irreverente, a melodia se desenha muito pouco irreverente para acompanhar o que suscita a letra/enredo: A dimensão trágica, dramática, séria, sim, e expressa na construção solene de grande parte dos versos, mas ao mesmo tempo o que carece de gargalhada, ginga, para cumprir-se musicalmente "pombagiresco", com tônus de Exu, sirá que sintoniza com o enredo porque é o dono do corpo, da alegria rara, da transformação (das "transições"), da abertura de caminhos, de tudo o que vai ao encontro de Xica Manicongo, mas não da melodia, conformada em uma zona de conforto, de cumprimento de adequação/obediência a padrões de um samba-enredo a ser julgado por regras às quais não desafia e com as quais não negocia possibilidades do novo e diferente. Pelo desencontro entre a cartilha melódica e o fora-da-cartilha da letra/enredo, justifica-se a penalização. |
| 2025 | Unidos de Padre Miguel | Samba Enredo | alta | LETRA: (-0,1) Entrosamento imperfeito entre versos e desenhos melódicos. Há cacofonia em dois momentos. 1ª) Em "Vai voltar, mainha (...)", pertinentemente a estrofe com BIS, ou seja, de grande importância quanto ao apelo ao canto e audição. Tanto devido à pronúncia relativamente acelerada quanto devido às notas melódicas de "vou-vol-tar". Mais do que ouvir "você tá" ou "vou voltar", escuta-se "vô tá", isto é, a sílaba "vol" entre "vou" e "tar" tende a ser desapercebida ou mesmo elidida na dicção. Tal repercussão involuntária de "você" ou "vô" advém problemática considerando também uma letra com termos do campo familiar/geracional, por sua vez, e ao contrário, em repercussão voluntária nos versos, tais com "você", "mainha", "babá", "iyá". 2ª) Em "Na escuridão nunca andarei só", pelas mesmas razões o canto e a audição tendem a tornar "nunca andarei" em "nuca darei". Em uma letra que exerce tamanha função na comunicação de palavras de matriz africana, a comunicação de palavras em língua portuguesa é decisiva para os efeitos descritivos e/ou interpretativos do enredo. Por isso, o decréscimo de 0,1 (1 décimo de ponto) em letra. |
| 2025 | Unidos de Vila Isabel | Samba Enredo | alta | LETRA: (-0,2) O primeiro décimo de ponto decrescido se deve a inadequação de trechos ao enredo, cujo título é "Quanto mais se reza, mais assombração aparece" em confuso desdobramento linguístico. O dito popular sugere que rezar não adianta, porque as assombrações só aumentam. Rezar seria, então, aí, uma ilusão, face aos males e problemas mais. A proposta de enredo e letra é: as assombrações é que são ilusórias e a "reza" passa a tornar-se real quando equivalente a "sombra" como ação que atrai fantasmas ("Quanto mais samba tocava, mais defunto aparecia"). Porém, no verso imediatamente anterior ("Nas redondezas, credo em cruz, Ave Maria") parece estar ainda em vigor a potência de rezar como ação para afastar fantasmas, quando isso, em verso novamente anterior ("Chora viola, pra alma penada sambar"). Há, aí, celebração (e não aversão) no que diz respeito ao que assombra. Enfim, a "reza" enquanto "sambar", se pareceria ação de pessoas que acabam chamando, por exemplo, vampiros, se sugere ação dos próprios vampiros que "tocam bateria", como se fossem eles que rezam/samba para chamar as pessoas. O segundo décimo de ponto decrescido se deve a emprego de vocabulário impróprio: o uso de "capitão", embora em subtexto reverencie personalidade importante para a escola e o Carnaval, não escapa da leitura da palavra a partir de si, do significado que "capitão" possui: um líder de soldados, uma força militar, ou seja, que cuida para que soldados tenham coragem para enfrentar o que os confronta, ao invés de cuidar para que não tenham medo de se integrarem"; um capitão os manteria seguros, protegidos, fortes, nos "trilhos" e não vulneráveis, rendidos. Mas "capitão", como líder de um trem fantasma, parece, ao contrário, lançar sua legião aos perigos, aos "bichos"! Se tudo, afinal, é uma grande brincadeira e fruto da imaginação, o risco de uma letra levar o imaginável ao limite (e para fora dele) é o de tanto produzir uma homenagem que não se deve levar a sério, quanto — como guia do trem — imaginar o capitão como outro fantasma (o que geraria uma referência/reverência de mau gosto). |
| 2025 | Unidos do Viradouro | Samba Enredo | alta | LETRA: (-0,1) Entrosamento imperfeito entre verso e desenho melódico. O verso "Acenda tudo que for de acender" é belo como letra, assim como a melodia é bela por si, sem a letra. Porém, quando reunidos, há tendência ao não discernimento de cada palavra, principalmente pela velocidade prevista no âmbito melódico para esta parte. Mas também porque a sequência de consoantes em "d" (aín-Da tu-Do C...-D-e acen-D-er) compromete a dicção, resultando muito mais na escuta, após a vogal "a" de "acenda" na abertura, somente das vogais das sílabas tônicas ("aen" em "acenda", "tu" em "tudo", "é" e "acender" = a-en-u-e-er), esvaziando o verso de maior força comunicativa para além da dimensão sonora e rítmica. Acrescente-se, ainda, que a opção pelas frequentes repetições de versos ao longo de toda a letra é um recurso capaz de dinamizar o canto, sim, com a ressalva de que, em excesso, pode levar à exaustão a própria música — fato percebido quando o termo retorna do mesmo simultaneamente em letra e melodia: passa a sugerir-se menos como um círculo virtuoso musical e mais como um círculo vicioso, no qual a previsibilidade gera aos poucos o efeito inverso do não dinamismo. |
›Justificativas manuscritas nos cadernos da LIESA — transcrição "na medida do possível". Consulte o PDF original em "Notas originais" para o texto definitivo.